Carreira e Mercado

MORAR FORA PODE SER UMA AVENTURA. E TAMBÉM UMA LIÇÃO DE VIDA

Como eu trabalho com treinamento comportamental, vez por outra me lembro de situações da minha vida em que eu tive que enfrentar alguma adversidade e a forma como eu reagi a isso.

Quando completei 23 anos, eu morava em Boston havia 6 meses, onde eu estudava, trabalhava, viajava e tinha uma sede enorme de ter novas vivências. Assim, decidi passar alguns dias em Nova Iorque com a minha namorada, que estava voltando para o Brasil. Ficamos hospedados no hostel YMCA, bem pertinho do Madison Square Garden. A hospedagem era muito barata e os quartos pareciam celas solitárias, com camas duras, banheiro coletivo, o lugar preferido dos jovens duros do mundo inteiro.

Foram dias de muita caminhada sob um frio intenso e neve, visitas aos principais pontos turísticos da cidade, nada de compras – por motivos óbvios – e alguns bares à noite. Em um desses, no SOHO, roubaram minha mochila com a câmera fotográfica emprestada e a chave da minha casa, que ficava em Brookline, arredores de Boston. Fiz questão de andar a pé, de metrô, de ônibus, de táxi e até de carona com um brasileiro que conheci em Boston. Me chamou a atenção uma boate chamada Limelight, que funcionava em um igreja. Minha mãe pediria minha excomunhão se me visse bebendo cerveja na escuridão, próximo ao altar.

Após deixar minha namorada no aeroporto de Newark (Nova Jersei), voltei para Nova Iorque, fui ao terminal de trem Penn Station para comprar minha passagem de volta e fiquei com exatamente 7 dólares no bolso, uma nota de 5e outra de 2 dólares, que era uma espécie de amuleto da sorte. De lá, fui dar um “rolé” nas redondezas, para ver as lojas, as novidades. Não comprei nada, mas presenciei um assalto bem à minha frente – nada que um carioca achasse muito estranho.

Quando deu o horário da partida, eu já estava aguardando há algum tempo, sentado, de saco cheio, louco para voltar para casa. Escrevi alguns postais, li e reli o mapa de Nova Iorque, tudo para passar o tempo. Eu olhava no painel eletrônico e nada de chamada para o embarque. Passaram-se vinte, trinta, quarenta minutos e nada.

Enfim, ouvi a chamada e embarquei. Ufa!…Partimos. Eu observava com atenção a aquele emaranhado de trilhos, com diversos trens chegando e partindo de Nova Iorque.  Em poucos minutos, estávamos em uma zona bem esquisita do Bronx, na periferia, quando o trem parou. E ficou parado por um longo período, cerca de duas horas. O trem ficou sem luz e o desespero começou a tomar conta de alguns passageiros. Nenhuma informação disponível. Ao meu lado, um cara lendo um livro como se nada estivesse ocorrendo. Só parou quando escureceu. Percebi que o trem estava voltando para o ponto de partida, lentamente, de ré. E agora? Eu, voltando para Nova Iorque, com 7 dólares no bolso, já com fome e sem a minha mochila. Chegamos de volta à Penn Station e desembarcamos.

Uma hora depois, as pessoas já estavam revoltadas e formando uma fila enorme nos telefones públicos, para alertar suas famílias sobre o atraso. O alto-falante da estação dava informações desconexas e com um nível de qualidade sonora sofrível, difícil de ser entendido até para os americanos. Comecei a ficar preocupado, principalmente pela quantia que tinha na carteira.

Na fila do telefone, uma menina americana, com duas enormes malas e mais uma mochila, pede para eu dar uma olhada nas malas enquanto ela iria se informar. Pouco depois, ela surge desesperada dizendo que teríamos que pegar um taxi para a Grand Central Station, pois o trem não mais sairia de onde estávamos. Esse seria apenas o meu primeiro obstáculo naquela jornada. Negociei com ela carregar suas malas, em troca do pagamento do taxi, pois eu não tinha dinheiro. Ela topou e partimos. No trajeto, cujo destino era muito próximo, um motorista paquistanês tentava nos enrolar, fazendo um caminho mais longo. E ela gritando com ele, pois morava na cidade e conhecia bem o trajeto.

Já na Grand Central Station, descobrimos que iríamos pegar um trem comum, mas que haviam reservado um vagão exclusivo para quem viesse da Penn Station. E era muita gente… Tivemos que esperar quase duas horas. De fato, partimos nesse trem e, uma hora depois, estávamos em uma outra estação, onde nos aguardava o trem que seguiria conosco para Boston. Fiquei sabendo que ocorrera um acidente em uma ponte e, por isso, tiveram que interromper o tráfego.

Entrei no outro trem e sentei de frente para duas meninas. Contei a ela minha situação crítica, sem dinheiro e com fome. Elas me ofereceram vodka e amendoim. Fomos conversando por um bom tempo, até elas descerem em Connecticut.

Chegando em Boston, não tinha dinheiro para pegar um táxi, pois o meu planejamento era utilizar o meu cartão mensal do metrô, mas este estava fechado, pois já passava da uma da madrugada. Como era muita gente para pegar táxi, imaginei que algumas pessoas iriam para Brookline. Assim, comecei a gritar o nome do meu bairro e, rapidamente, estava dividindo um taxi com três outras pessoas, para quem eu dei a minha única nota de 5 e mais a minha de 2 dólares, que me provou ser um verdadeiro amuleto.

Ao entrar em casa, tive que acordar as pessoas, pois estava sem chave. Todo mundo estava preocupado e ficaram perplexos com a minha história: treze horas de Nova Iorque a Boston, nove horas a mais do que o normal. Fui dormir pensando em tudo o que havia ocorrido. Cansado, mas ao mesmo tempo achando interessante tudo o que eu havia passado. Afinal, juventude combina com aventura.

Imagine o valor dessa experiência para a minha vida profissional e empresarial! Tive que buscar informações, decidir sob pressão, enfrentar o imprevisível, ter iniciativa, expressar minha confiança, persuadir pessoas, correr riscos reais, avaliando cada decisão.

Hoje, olhando para trás, posso ver claramente o quanto a manifestação desses comportamentos serviram para me mostrar a capacidade que eu teria para enfrentar outros desafios na minha vida. Nada acontece por acaso. Acredite.

Fernando Gameleira 
Empresário, International Master Trainer do Empretec, professor de MBA na ESPM, atuou como conselheiro no reality show Aprendiz – O Sócio e faz parte do Board of Experts da CP4 Cursos no Exterior|Traveller.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s